segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Inscrição sobre as ondas


Mal fora iniciada a secreta viagem
um Deus me segredou que eu não iria só.
Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que Deus me segredou.

Ladaínha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito
D.M.F.

3 comentários:

Letras de Babel disse...

o verdadeiro momento final é aquele em que nos esquecem.



[ele sabia disso]

Letras de Babel disse...

A propósito (ou não), lembrei-me de que o meu 1º namorado foi um sobrinho desse senhor. Estudava em Abrantes, no La Salle, e exigia uma carta minha todos os dias (como se fosse um romântico...). Em contrapartida ele escrevia uma por semana e vinha ver-me ao domingo à tarde.

eu nunca fui boa em acordos...

:))


( de vez em quando lembro-me que já fui adolescente...)

St. J. disse...

a memória é como as ondas. vai apagando os passos no areal. até desaparecerem, varridos pelas marés...


às vezes recupera-se num flash, como se fosse uma fotografia, fotografada de outra fotografia que só existe em nós, porque a memória não a varreu...

a vida tem pequenas coisas, singelas, frágeis, mas únicas, que conseguem avivar fotografias de uma forma muito estranha...

do lado dele, não do da ex-mulher, só teve mesmo um sobrinho. jaime...

todas as pessoas alguma vez foram adolescentes. umas, felizardas, durante mais tempo, outras, de uma forma fugaz, rapidamente apagada pelas ondas da vida, vorazes...